
Se os governos democráticos não forem capazes de devolver esperança resolver problemas das comunidades, e se a política continuar a falhar nas respostas à precariedade, à solidão e à falta de perspetivas de futuro, os vendedores do medo continuarão a encontrar terreno fértil.
O medo tornou-se uma das ferramentas mais eficazes da política contemporânea. Em vários países, líderes populistas e de extrema-direita exploram inseguranças reais como as económicas, sociais e culturais para apresentar respostas simples a problemas que são complexos. O resultado é uma mensagem fácil de entender e de assimilar pelas populações, mas perigosa para a qualidade da democracia.
Já não surpreende o estilo das intervenções de André Ventura, presidente do Chega, nem o de outras figuras do partido, como Rita Matias. Neste texto, porém, importa centrar a análise no primeiro.
Em tempo escrevi um texto onde incluía uma imagem de nuvem de palavras mais usadas por Ventura nas suas intervenções, definidoras das suas características como político (ver figura abaixo).
André Ventura não é original, apenas mimetiza, em modo suave, o que presidentes e parceiros de partidos da sua área política dizem fora do nosso país.
O padrão repete-se: perante problemas económicos e sociais complexos, estes movimentos escolhem um inimigo fácil de identificar. Podem ser os imigrantes acusados de roubar empregos, as elites apresentadas como corruptoras da cultura ou qualquer grupo visto como ameaça à identidade nacional. A história mostra como esta lógica pode ter consequências graves: no nazismo, os judeus foram transformados em culpados por todos os males da Alemanha, incluindo a derrota na Primeira Guerra Mundial.
Quem vende o medo procura também vender a solução. Os líderes populistas apresentam-se como salvadores fortes, duros e capazes de impor ordem. Quando chegam ao poder, muitas vezes pedem em troca a aceitação de menos liberdades em nome de uma segurança que prometem, mas nem sempre conseguem garantir.
Estas estratégias exploram um mecanismo simples: quando o medo domina, o pensamento crítico perde espaço. As pessoas tendem a procurar proteção imediata e a dividir o mundo em campos opostos: nós contra eles, segurança contra ameaça, pureza contra contaminação. É nesse ambiente que as mensagens autoritárias se tornam mais eficazes.
A utilização estratégica do medo e da ansiedade social por líderes e movimentos populistas de extrema-direita (as extremas- esquerdas por vezes também não ficam atrás) é um fenómeno global que tem sido amplamente estudado pela ciência política. Várias figuras de proa, tanto no panorama internacional como em Portugal, estruturam os seus discursos à volta desta narrativa. Veja-se por exemplo os seguintes que nos chegam mais vezes pela comunicação social:
Donald Trump nos Estados Unidos atinge o nível global. A sua retórica política apoia-se consistentemente na ideia de declínio nacional e de ameaça externa. Trump frequentemente descreve as fronteiras como zonas de “invasão” por migrantes criminosos, as grandes cidades americanas são antros de caos e violência urbana. A promessa implícita é sempre a mesma “Apenas eu vos posso proteger” tal como Trump afirmou em outubro de 2016.
Viktor Orbán, ex-primeiro-ministro da Hungria, construiu o seu poder em torno da chamada “democracia iliberal”. A sua máquina política insistia na ideia de que a identidade cristã europeia estaria ameaçada pela imigração muçulmana.
Em França, Marine Le Pen e o RN-Rassemblement National têm feito da insegurança económica e identitária um dos eixos centrais do seu discurso. A narrativa associa imigração, terrorismo, desemprego e a ideia de “islamização” dos subúrbios franceses, apresentando o protecionismo e o nacionalismo económico como respostas principais.
Nos Países Baixos temos Geert Wilders com a sua retórica ferozmente anti-islâmica. O seu discurso centra-se na premissa de que os Países Baixos estão a ser “ocupados” e a perder a sua cultura secular devido à imigração em massa, exigindo medidas drásticas como o fecho de mesquitas e a proibição do Corão em nome da segurança nacional.
Em Portugal, André Ventura e o Chega seguem esse mesmo padrão. O discurso tem explorado medos concretos da sociedade portuguesa, sobretudo a insegurança e a perceção de falta de autoridade. A insistência em casos de criminalidade, por vezes associados a comunidades minoritárias ou a estrangeiros, serve de base à defesa de penas mais duras, da prisão perpétua e do reforço dos poderes policiais.
A imigração e identidade fazem parte da representação devido ao recente crescimento da imigração, não como um reflexo de dinâmicas laborais ou demográficas, mas como uma “invasão” planeada que ameaça e sobrecarrega os serviços públicos, a segurança e a identidade cultural do país.
Sendo antissistema coloca-o contra os partidos do arco governativo e as instituições tradicionais, rotuladas de negligentes face aos problemas do “cidadão comum e trabalhador”.
Vivemos um tempo em que o otimismo escasseia. A comunicação social mostra diariamente guerras, crises políticas, tragédias humanas e desastres ecológicos. Os populistas aproveitam esse ambiente para “surfar” crises económicas, mudanças tecnológicas e transformações sociais rápidas. Não inventam todos os medos que usam; muitas vezes apenas convocam receios que já existem no imaginário coletivo, alimentam-nos e dão-lhes um alvo. Quando o medo se torna normal, a empatia e a solidariedade enfraquecem e o sofrimento dos outros deixa de ser visto como uma tragédia humana e passa a ser tratado como uma ameaça.
Se a democracia quiser travar os mercadores do medo, terá de oferecer mais do que discursos eleitorais. Precisa de responder à precariedade, combater a solidão, reduzir a corrupção e devolver às pessoas uma perspetiva concreta de futuro. O antídoto para o medo não está apenas na denúncia dos extremismos; está também na construção de sociedades mais justas, coesas e capazes de transformar a incerteza em esperança partilhada.