Crónicas Sobre Tudo

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Populismo do Governo e populismo da oposição

O PSD usar uma linguagem moderada, gravata institucional e aparência de responsabilidade. O método não deixa de ser semelhante, vender percepções antes de consolidar resultados.

Há declarações políticas que quase pedem uma leitura humorística, tal é a forma como são lançadas: mais como farpas de “stand-up comedy” do que como contributos sérios para o debate público.

Na Universidade de Verão do PSD — que considero sobretudo um evento de influência e propaganda partidária —, o deputado Hugo Soares acusou José Luís Carneiro e André Ventura de “navegarem no populismo”. Ao fazê-lo, colocou o líder do PS e o líder do Chega no mesmo retrato político da oposição.

E, claro, Rui Rangel, qual demagogo, diz bis e defende governação da AD confrontada como a “demagogia” do Chega e o “laxismo” do PS. Hugo Soares e Rui Rangel em sincronia!

Dita no contexto da Universidade de Verão do PSD a frase de Hugo Soares pretende apresentar o partido do Governo como o espaço da responsabilidade, por oposição a uma oposição supostamente movida por exageros, alarmismos e soluções fáceis.

Esta a acusação tem um problema evidente porque, quem aponta o populismo dos outros também deve explicar a sua própria propaganda. As ações do Governo não são mais do que isso. Os resultados concretos continuam aquém das promessas feitas aos portugueses, bem pelo contrário, instalou-se um sistema de medidas confusas e sem resultados concretos como é o caso, sobretudo na saúde, e quase “caóticos” como na educação, sem mencionar os “casos” daqui e dali que têm surgido.

Quando Hugo Soares acusa Carneiro e Ventura de navegarem nas mesmas águas, o objetivo é claro: reduzir a oposição a um bloco indistinto, emocional e irresponsável. No entanto, essa leitura evita a questão principal: governar não é apenas comunicar melhor, é mostrar resultados concretos.

 O PSD, na fórmula de AD, chegou ao Governo prometendo mudança, eficácia, estabilidade e uma nova relação com os cidadãos. Porém, em áreas decisivas como a saúde, habitação, imigração, segurança social, salários, serviços públicos e confiança nas instituições a perceção de muitos portugueses continua marcada por bloqueios, atrasos, incerteza e confusão.

O Governo usa a propaganda e a comunicação política para funcionarem como substitutos da governação: anuncia-se, enquadra-se, dramatiza-se, culpa-se o passado e a oposição presente e celebra-se uma normalidade que nem sempre se sente no quotidiano.

É aqui que a crítica de Hugo Soares se torna frágil. Se populismo é explorar medos, simplificar problemas complexos e transformar adversários em caricaturas, então nenhum partido está imune a essa tentação. A propaganda partidária do PSD/AD e, obviamente do Governo, que prometem eficácia sem demonstrar resultados importantes, que transforma cada dificuldade herdada numa desculpa permanente e que apresenta cada medida anunciada como uma vitória consumada também navega, à sua maneira, em águas populistas.

O país não precisa de uma competição sobre quem chama primeiro “populista” ao outro. Precisa de respostas claras para listas de espera, casas inacessíveis, jovens sem perspetiva de estabilidade, pensionistas inseguros, empresas pressionadas por custos e cidadãos cansados de promessas. Se a política continuar centrada em slogans, acusações e narrativas cuidadosamente fabricadas, todos os partidos contribuirão para a mesma erosão da confiança que dizem combater.

O PSD pode fazê-lo com linguagem moderada, gravata institucional e aparência de responsabilidade, mas o método não deixa de ser semelhante, vender perceções antes de consolidar resultados.

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