
Cara Caty
Faz alguns dias que tenho escrito pouco. Eu quis, antes de tudo, pensar no diário deste dia.
É estranho uma pessoa como eu manter um diário; não apenas por falta de hábito, mas porque me parece que ninguém, nem eu mesmo, poderia interessar-se pelos meus desabafos. Jamais consigo falar de algo que não seja a rotina de sempre que nos é dado pelos canais de televisão e imprensa. Pelas redes sociais é uma seca, tenho sempre de andar a confirmar a veracidade da informação entre tanto lixo que lá existe e o problema é que não nos conseguimos aproximar das ideias de uns e de outros. Talvez me falte autoconfiança; seja como for, o facto é esse. Mas que importa, quero escrever e, mais do que isso, quero trazer à tona tudo o que se está a passar nestes últimos dias devido à manifestações e protestos que incondicionalmente tu apoias. Eu também, mas noutro sentido!
Quando foi o 25 de Abril terias 3 aninhos, não o sentiste, nem o viveste, mas lutas por ele à tua maneira, ainda bem. Estiveste ou estás ainda em Lisboa, não sei. Quiseste juntar-te aos jovens à volta dos protestos da habitação no Rossio para manifestares apoio à “Acampada pela Habitação”, e classificares a crise habitacional como a maior do país. Tens razão. Por aí estamos de acordo. Criticas a intervenção policial nos protestos, acusando o Governo de alimentar a contestação social. Talvez tenhas razão. O Governo parece não ter competência nem criatividade suficientes para gerir casos como este. Mas, por outro lado, discordo sobre a desobediência às forças de segurança destinadas para manutenção de regras e manter a ordem pública. Não te vejo a apoiares desmandos, vandalizações e ocupações. Ou será que me engano? Claro que estou enganado! Não irias por aí!
Cara Caty
Nas sondagens sobre intenções de voto o teu partido tem estado pelas ruas da amargura, mas, se conseguires mobilizar bem os manifestantes jovens, para o qual tens muito jeito, serão mais uns votinhos no próximo ato eleitoral. Aliás, se conseguirem baixar a idade para o exercício do direito ao voto tanto melhor. Qualquer dia exigem que possa ser aos cinco anos.
Andas lá pela Europa a protestar contra tudo e contra todos, até contra a própria Europa a dos malandros capitalistas. Sim, Caty, alguns são bem malandros e não só.
Agora manifestas-te pelo direito à habitação, mas também tens nas mãos muitos outros dossiers. Ele são Justiça Climática e Defesa do Ambiente; o Serviço Nacional de Saúde (SNS) e o apoio aos movimentos de utentes; as reivindicações dos profissionais de saúde por melhores condições de trabalho e de atendimento; a Educação Pública e até mesmo a luta contra a Prova Geral de Acesso (PGA) e claro manifestações contra as propinas na universidade; no apoio aos movimentos de professores e as exigências por melhores condições nas escolas; no Parlamento Europeu e a nível nacional, focas-te na valorização dos salários e em contratos de trabalho dignos; és defensora ativa da igualdade de género, dos direitos das mulheres e do combate à violência doméstica; lutas pelo antifascismo e direitos de imigrantes; envolves-te em manifestações e causas contra o crescimento da extrema-direita na Europa, em defesa dos direitos humanos dos migrantes e refugiados e pela preservação da integridade democrática; empenho na defesa dos direitos da comunidade LGBTQIA+; Movimentos Internacionais e pela Paz, onde incluis também o apoio à Palestina e ao povo palestiniano; estás solidária com lutas internacionais, nomeadamente causas humanitárias, movimentos pacíficos globais, a autodeterminação dos povos; a oposição à intervenção militar e ocupação de territórios estrangeiros, espero que também da Ucrânia. Não sei como te consegues desdobrar em tanta atividade sem te dispersares!
Cara Caty
Tiro-te o chapéu porque só quem tiver falta de sensibilidade social e humanitária estará contra tudo o que defendes. Ajudas a mudar o mundo, mas fico muito curioso em saber como pensas atingir os objetivos da tua luta.
O meu pensamento divaga sobre como resolverias todos e tantos problemas que afligem a sociedade, direi mesmo a Humanidade. Congemino em modo restritivo várias possibilidades de como agirias cá, no nosso Portugal, para “democraticamente impores” tanto da tua luta e dos teus objetivos e tornando-nos, a todos nós, um povo feliz e contente.
Talvez acabares com as malvadas das empresas capitalistas e multinacionais nacionalizando-as? Criavas impostos aos muitos ricos e às empresas lucrativas para que na penúria fossem depois ocupadas pelos trabalhadores e passado pouco tempo fechassem? Expropriavas todas as habitações privadas para serem distribuídas por quem não a tem, deixando outros sem habitação? Aumentarias, sem critério, todos os trabalhadores explorados pelos malvados dos patrões que os explora? Mesmo todos? A sério? Controlarias todos os preços para baixares o custo de vida, para depois surgir a escassez de bens? E na saúde, o que farias? Nacionalizavas tudo o que são hospitais privados passando todos a ter falta de qualidade em vez de melhorares os públicos? E quanto à poluição e ambiente, suprimias as viaturas e os aviões poluidores? Se não nacionalizasses as empresas e bancos aumentarias os impostos de tal modo que os conduzirias à sua falência? Tudo em nome de todos nós, o povo que ficaria submisso a tanto bem que farias a jovens, trabalhadores e reformados.
Cara Caty
Do meu ponto de vista o PS e os partidos da tua área ideológica, a “extrema-esquerda” fomentam e encorajam politicamente os protestos, alegando, por vezes, que certas manifestações funcionam como uma “cruzada ideológica” em vez de uma genuína preocupação social. Isto da cruzada ideológica é para os que estão de fora, quando é a vez de eles fazerem manifestações deixa de o ser. Basta lembrar-nos de Ventura. Mas enfim!
Já agora digo-te a minha posição sobre o tema decorrente das manifestações, mas não me venhas dizer que sou fascista, extremista de direita, simpatizante do partido de Ventura ou coisas do género. A minha posição é o do reconhecimento da legitimidade e gravidade da crise habitacional e, simultaneamente, a condenação firme dos excessos nos protestos de grupos de arruaceiros e vândalos e recuso a tolerância de distúrbios, provocações deliberadas às autoridades ou destruição de património e a defesa intransigente da atuação policial.
Bem, querida Caty, não me leves a mal, isto foi um mero desabafo, porque pessoalmente nada tenho contra ti, o mesmo não direi sobre o que pensas de como gostarias que fosse o nosso Portugal.
Mas, continua a tua luta até ao desastre final!